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text written and published for solo show
in Espaço Tranquilidade, 2012

The nine photographs presented at the Espaço Arte Tranquilidade constitute, along with another six, a series to which João Grama (b. 1975) has given the title Ropes. This set is part of a wider body of work which has as fundamental axes: time, image, and place. I believe it is in the unfolding of certain data that the special grandeur of these images can be perceived. In this light, I seek an approach that feeds on what one should do when speaking of poetry: more than searching for explanations, to weave and establish implications. Poetry is invoked here, not because these images want to become poems (even if they perhaps are), nor indeed because the images are poetic (despite being so), but so that our view of these images is informed of what poetry teaches us.

A first set of images of the series Ropes was presented in 2011, at the first edition of the European Photo Exhibition Award. The photography prize proposed that the works contributed to the construction of what nowadays could be defined as European identity. To meet this challenge, João Grama moved to the region of Sagres in south Portugal – symptomatic of these times, an artist deciding to focus his work on a remote way of life. During that sojourn, he undertook a photography project and will also begin a film project, a reason for the artist to return to that landscape in the near future. It was on a beach on the Vincentian coast that João Grama discovered his field of work and the leitmotiv of his visual research: some ropes, strategically left on the rocks of a cove, drew his attention. He subsequently found out that these elements enable the harvesters of gooseneck barnacles, who work in that harsh and rugged terrain, to reach the areas where these crustaceans reproduce. From the experience of living in the region for over a year, he acquired an in-depth knowledge of the people, their relationship with the sea and their work in the sea. The artist accompanied a community of gooseneck barnacle harvesters in their daily toil and in the demanding physical activities associated with it. The ropes are the fundamental means of this activity. It is through a system of knots and the installation of these ropes along the rocks that their bodies remain connected to land. And yet, both in the photographs and on the cliffs, the ropes are nothing more than delicate lines, spontaneous drawings on the landscape.

In a political context, since we are dealing with the fragile notion of European identity, his visual research has no intention of being an anthropological and/or documental observation. Even if focused on the knowledge of the human geography of that region, the work presented here is not about that decisive involvement between men and landscape. These are not portraits. And yet, they depict someone's work and intervention on the landscape. They are, therefore, memorials to those “who shape the physiognomy of places [,] extending into the sea the obscure energy of men”, to whom the portuguese geographer Orlando Ribeiro dedicated his study Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico [Portugal, the Mediterranean and the Atlantic] (1963). In a way, these images fall into the great genealogy of territorial photography, where Orlando Ribeiro is also included, which has as its principal veins: the collection of views of Paris taken by Eugène Atget (1857-1927) immediately prior to the urban renovation undertaken by Haussmann; and the landscape photography of Timothy H. O'Sullivan (1840-1882), both during the American Civil War when he captured the battlefields, and later when he accompanied the great expeditions which aimed at mapping and surveying the territory which, in the meanwhile, had been pacified. Note that the impulse that gave rise to these great photographic enterprises is common: to record the changing of one time into another. However, be it in the views of the old streets, façades and fortifications of Paris, or in the landscapes of the immense mountains, deserts or rivers of America, human presence is avoided. Even if these are unquestionably records of the same human geography which Orlando Ribeiro referred to as the human face of Geography, which he considered to be made with all senses.

I like to think that for the accomplishment of this work, João Grama discovered the positioning of his point of view while he was surfing. As I imagine it, this sport places the emphasis on experiencing a tensional positioning between the sea and land. Note that most of these photographs adopt the view from the sea as their point of observation: the images are taken from boats or with his back to the sea. The sea, however, is always present: it is the motive behind what we see. There is also another notion associated with the position of this viewpoint: it is the gaze of discovery, of one who roams, who reaches the territory.

Lastly, his images are not documental as they are rigorously constructed. They are manipulated (sometimes, certain elements are removed, others are highlighted, slides are superimposed into one image, etc.) to emphasise one truth. They are images that result from an experience of the territory: anchored in the real – in the here and now, of a landscape that is returned to us by the artist – informed by poetry. These images are images (metaphors) of life.

(Maria do Mar Fazenda, 2012)

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As nove fotografias apresentadas no Espaço Arte Tranquilidade constituem, com outras seis, uma série que João Grama (n.1975) intitulou de Ropes [Cordas]. Este conjunto integra um corpo de trabalho maior, que tem como eixos fundamentais: o tempo, a imagem, o lugar. Penso que é no desdobrar de alguns dados, que a especial grandeza destas imagens pode ser entrevista. Nesta leitura, procuro uma abordagem que se alimente do que se deve fazer ao falar de poesia: mais do que procurar explicações, tecer e estabelecer implicações. A poesia é aqui invocada não por estas imagens quererem ser poemas (ainda que talvez o sejam), nem tão pouco por as imagens serem poéticas (apesar de o serem), mas para que o nosso olhar sobre estas imagens seja informado daquilo que nos ensina a poesia.

Um primeiro conjunto de imagens da série Ropes foi apresentado em 2011, na primeira edição do European Photo Exhibition Award. O prémio de fotografia propunha que os trabalhos contribuíssem para uma construção do que hoje podemos definir como identidade europeia. Para dar resposta a este desafio, João Grama mudou-se para a zona de Sagres, sintomático do tempo que vivemos, um artista decidir trabalhar sobre uma vivência remota. Durante essa estadia realizou um projecto de fotografia e dará início a um projecto cinematográfico, motivo para o artista voltar àquela paisagem proximamente. Foi numa praia na orla Vicentina, que João Grama encontrou o seu campo de trabalho e o leitmotiv da sua pesquisa visual: umas cordas, estrategicamente abandonadas nas rochas de uma enseada, chamaram-lhe à atenção. Veio a descobrir que estes elementos permitem aos apanhadores de percebes, que trabalham naquele perfil acidentado e agreste, chegar às zonas onde estes crustáceos se reproduzem. Da sua vivência naquele lugar ao longo de mais de um ano, decorreu um conhecimento profundo das pessoas e das suas relações com o mar e com o trabalho no mar. O artista acompanhou uma comunidade de percebeiros no seu labor quotidiano e nas actividades físicas extremas que lhe estão associadas. As cordas são os meios fundamentais desta actividade. É através de um sistema de nós e da instalação destas cordas nas rochas, que os corpos se seguram à terra. No entanto, nas fotografias assim como nas arribas, as cordas não são mais do que linhas delicadas, desenhos espontâneos sobre a paisagem.

A sua pesquisa visual, num contexto político, já que nos debatemos com a ideia frágil da identidade europeia, não pretende ser uma observação antropológica e/ou documental. Ainda que centrado no conhecimento da geografia humana daquela região, o trabalho aqui apresentado não é sobre esse envolvimento decisivo dos homens com a paisagem. Não são retratos. E no entanto, retratam o trabalho e a intervenção de alguém sobre a paisagem. São, por isso, memoriais daqueles "que modelam a fisionomia dos lugares [,] prolongando no mar a obscura energia dos homens", a quem o geógrafo Orlando Ribeiro dedicou o seu estudo Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1963). De certo modo, estas imagens inscrevem-se na grande genealogia da fotografia de território, onde Orlando Ribeiro também ocupa um lugar, que tem como filões principais: a colecção de Eugène Atget (1857-1927) das vistas de Paris imediatamente antes da reformulação urbana de Haussmann; e a fotografia de paisagem realizada por Timothy H. O'Sullivan (1840-1882) durante a Guerra Civil Americana, onde registou os campos de batalha, e mais tarde, acompanhou as grandes expedições com o objectivo de mapear e inventariar o território entretanto apaziguado. Note-se que o impulso que deu início a estas grandes investidas fotográficas é comum: o registo da mudança de um tempo para outro. Mas, seja nas vistas das antigas ruas, fachadas e fortificações de Paris, seja nas paisagens das imensas montanhas, desertos ou rios Americanos, a presença humana é evitada. Ainda que indubitavelmente sejam registos da mesma geografia humana a que Orlando Ribeiro se referia como a face humana da Geografia, que considerava ser feita com todos os sentidos.

Gosto de pensar que para a realização deste trabalho, João Grama tenha encontrado o posicionamento do seu olhar enquanto fazia surf. Como eu o imagino, este desporto coloca a tónica na vivência de um posicionamento tensional entre o mar e a terra. Repare-se que grande parte destas fotografias adopta o olhar do mar como ponto de vista: as imagens são captadas de barcos ou de costas para o mar. O mar, no entanto, está sempre presente: é o motivo daquilo que vemos. Há ainda uma outra noção associada à posição deste olhar: é o olhar da descoberta, de quem circunvaga, de quem chega ao território.

Finalmente, as suas imagens não são documentais na medida em que são rigorosamente construídas. São falsificadas (por vezes, certos elementos são apagados, outros realçados, slides são sobrepostos numa mesma imagem, etc.) para realçar uma verdade. São imagens fruto de uma experiência do território: ancoradas no real - no aqui e agora, de uma paisagem que nos é devolvida pelo artista -, informadas pela poesia. Estas imagens são imagens (metáforas) da vida.

(Maria do Mar Fazenda, 2012)