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text written and published for
EDP Foundation New Artists Prize, Eletricity Museum,
Lisbon, 2015

O interesse pelas memórias e pelas práticas vernaculares associadas aos lugares, e, correlativamente, a adoção de uma metodologia de trabalho com raízes na pesquisa antropológica são aspectos que têm distinguido a prática artística de João Grama, com maior incidência a partir do momento em que o artista passou a trabalhar preferencialmente sobre um território concreto, a zona mais a Oeste do Algarve. Foi nesta mesma região que João Grama encontrou o tema e os objetos representados nesta série: armadilhas tradicionais de pesca e caça que continuam a ser utilizadas por membros das comunidades locais, ainda que o seu uso seja ilegal.

Até a um passado recente muitas destas armadilhas tradicionais eram reconhecidas como arte oficial de pesca e caça, tendo posteriormente vindo a surgir sucessivas deliberações legislativas que determinaram a sua proibição, maioritariamente justificadas com a necessidade de racionalizar o aproveitamento dos recursos naturais e a defesa da sustentabilidade ambiental.

Este género de armadilhas variam na forma e nos materiais de acordo com a região, e como tal exprimem diferentes modos de adaptação às circunstâncias culturais e ambientais de cada região – i.e. os habitats naturais das espécies-alvo, as características morfológicas do terreno, o tipo de fundo do mar e regime de correntes, etc. Enquanto objetos mediadores da relação do Homem com os recursos naturais (na terra, no rio, no mar), as questões em torno da sua utilização e (i)legalidade não podem deixar de suscitar reflexões de âmbito histórico, sociocultural e político.

São objetos rudimentares, precários e obsolescentes, cujo valor reside na sua sobriedade e eficácia funcional. Alguns deles ajustam-se às imagens estereotipadas de armadilhas, como é o caso da que se assemelha a uma jaula retangular de metal e que é usada na caça de pequenos mamíferos (raposa, furão), ou o Covo que inclui uma peça de vime com um tampa em cortiça e uma enxada e que é utilizado na pesca em rios mas também no mar na apanha de moreias. As restantes armadilhas têm uma aparência mais inusitada que não denuncia a sua função, como a Estaca, que agrega um ferro, um pedaço de cortiça flutuante, anzol e corda de nylon e é utilizado na captura de robalos, ou a armadilha feita com um tubo de PVC preso a uma base de cimento usado na pesca de polvo com mais de 10 quilos. Dos materiais empregues ao tipo de fabricação que os caracteriza, tudo nestes objetos parece simples e elementar, ao ponto de podermos pensar que qualquer um de nós os poderia construir. Refira-se que sobre estes objetos não existe nenhum inventário ou estudo sobre a sua construção e condições ideais de utilização, o que significa que o seu conhecimento depende de modos diretos de transmissão e partilha, o que lhes confere um inestimável valor antropológico e temporal.

Tal como na sua série anterior, As cordas, que focava a presença das cordas usadas pelos apanhadores de percebes nos penhascos e falésias da costa atlântica do Algarve, nesta nova série de João Grama, sintomaticamente intitulada de O vício da terra, constata-se uma inclinação do artista por temas ligados a uma vivência territorial na qual prevalece uma relação direta e estreita com a natureza, como também uma atenção especial pelas práticas e pelos instrumentos que apontam para uma tecnicidade primária, arcaica e artesanal. Em qualquer dos casos são realidades em radical contradição com os modos e estilos de vida (urbanos) determinados pela omnipresença dos dispositivos tecnológicos, pela racionalidade económica e pelo espetáculo cultural. Neste contexto, o carácter primário e clandestino que define a atualidade destas armadilhas articula-se como reação a um certo maquinismo social, com as suas leis e obsessões tecnológicas, mas também como tentativa de suspensão do primado do racional a favor do primado da vontade individual, da inventividade e da resiliência.

O vício da terra é constituído por um conjunto de fotografias acompanhadas por uma coleção de palavras e expressões que orbitam em torno da utilização das armadilhas: bardo/ osso queimado/ onde o mar não bata muito/ lua cheia, lua nova / cabeça de areia novo / andarilho. Descontextualizados da sua enunciação, estes fragmentos formam um texto de unidades descontínuas, uma invulgar mas significante prosa poética. Quanto às imagens, elas representam os objetos sobre fundos neutros e homogéneos através de uma luz densa e escassa. A uma certa distância aparentam ser planos monocromáticos. Por isso são fotografias que requerem a aproximação do espectador para que a perceção se abra à inteligibilidade, à apreciação da singularidade material e estética dos objetos. A escuridão é aqui uma forma de restituir alguma distância relativamente às armadilhas, de denegar a objetividade e o efeito de transparência que por vezes se atribuem às fotografias. É pois uma obscuridade paradoxal, melancólica e dissimulatória, que suscita a dúvida se estamos perante uma luminosidade transitória inerente a um processo de desvelamento ou se, pelo contrário, a escassez de luz e visibilidade é o prenúncio de um apagamento total, de um desaparecimento definitivo.

(Sergio Mah, Junho 2015)

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O vicio da terra

The focus on the memories and vernacular practices associated with places, and, correspondingly, the adoption of a work methodology rooted in the practices of anthropological research are aspects that characterize João Grama’s artistic work, especially after the artist started focusing his work on a specific territory, the west Algarve. It was in this region that João Grama found the theme and the objects he has represented in this series: traditional fish and animal traps. Despite being illegal, these traps are still used by the locals.

Not long ago many of these traps were recognized as official tools for hunting and fishing, but were progressively banned by recent laws aiming to rationalize the use of natural resources and protect environmental sustainability.

Depending on the region they are produced, these traps vary in shape and in the materials used in their construction. As such, they reveal different strategies and adaptations to the environmental and cultural circumstances of each region – i.e. the natural habitats of the targeted species, the morphological characteristics of the terrain, seabed, ocean currents, etc. As objects that mediate the relation between humans and the natural resources they need for survival (on land, in rivers, or at sea), the issues that arise from their use and legal status excite various historical, socio-cultural, and political speculations.

Rudimentary, precarious and obsolescent, the value of these objects lies in their simplicity and efficiency. Some of them correspond to the stereotypical image of the trap, as the one resembling a rectangular metal cage used to trap small mammals (foxes, ferrets), or the Covo, a wicker basket with a cork lid and a hoe, used as a trap for fish in rivers, and at sea to trap moray eels. The other traps have stranger shapes that often do not immediately reveal their functions. The Estaca (the pole) combines an iron rod with a cork buoy, a fish hook and a nylon line, and is used to capture seabass. Another one, a simple PVC pipe fixed to a concrete base is used to trap octopuses weighing over 10 kilograms. From the materials used to how they are manufactured, everything in these objects seems simple and rudimentary. They seem easy to reproduce. There are no inventories or studies made on these objects, their construction methods or ideal conditions of use.

This means their existence and the knowledge associated with them depends solely on direct processes of transmission. This gives them priceless temporal and anthropological value.
Just like in his previous series, As cordas (The ropes), focused on the image of the ropes which are used by the men collecting goose barnacles, hanging from the cliffs of the Atlantic coast of the Algarve, this new series by João Grama, O vício da terra , confirms the artist’s propensity for themes connected to an experience of the territory characterized by a direct and close relationship with nature, and his attention to the practices and instruments that point towards primal, archaic, and artisanal techniques. In both cases, Grama focuses on realities radically opposed to the (urban) lifestyles dictated by the omnipresence of technological devices, economic rationality, and cultural spectacle. In this context, the primary and clandestine character that today defines these traps is articulated as a reaction to a certain social machinism, to its laws and technological obsession, but also as an attempt to reject the primacy of the rational in favor of the primacy of the will of the individual, inventiveness and resilience.

O vício da terra comprises a number of photos completed with a selection of words and expressions associated with the use of these traps: bardo/ osso queimado/ onde o mar não bata muito/ lua cheia, lua nova / cabeça de areia novo / andarilho (see translator’s note bellow). Out of context, these fragments create a text of discontinuous units, an unusual but meaningful poetic prose. The images represent the objects standing against neutral and homogenous backgrounds, under dim and dense light. At a distance, they seem almost monochromes. Because of this, these are photographs which require the spectator to approach them so that their perception opens to intelligibility, to the appreciation of the objects’ material and aesthetic singularity. Darkness is a way to restore some distance between us and these traps, a way to deny the objectivity and transparence that sometimes is attributed to photography. This paradoxical, melancholic, and deceiving darkness makes us doubt between revelation and oblivion: is this transitory light the augur of the revelation of these objects, or, on the contrary, is its scarcity the harbinger of their total and definitive evanescence?

(TN) O Vício da Terra, the title of this series by João Grama conveys the idea of an addiction/habit of the earth. It describes a relationship between humans and nature in which the first extracts the elements of their survival from the second through labor and hardship. Earthbound could be a possible translation, but it does not contain the proprietary connotation of terra, meaning earth, land, and homeland.

(Sergio Mah, June 2015)